O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o governo pretende elevar a mistura de etanol na gasolina para 32% ainda no primeiro semestre deste ano. A declaração foi feita durante a Latam Energy Week, no Rio de Janeiro, e sinaliza a pressa da equipe econômica em avançar com as diretrizes da Lei do Combustível do Futuro.
“Quero aqui em primeira mão dizer que queremos fazer o E32 em breve, ainda no primeiro semestre deste ano“, afirmou o ministro. Que afirmou ainda que as pesquisas necessárias para a mudança já estão em curso.
A medida é apresentada pelo governo como uma forma de reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados e blindar o mercado interno das oscilações no preço do petróleo, agravadas por conflitos internacionais.

Diferença parece pequena, mas não é neutra
Apesar de a mudança parecer discreta, sair dos atuais 30% para 32% de etanol, ela exige adaptações técnicas nos motores, ainda que imperceptíveis ao motorista na maior parte dos casos.
Segundo o engenheiro Erwin Franieck, conselheiro da SAE Brasil, a alteração implica um ajuste maior na queima do combustível.
“A calibração original era feita para veículos com E22, que precisam corrigir a mistura em 4,2% a mais de massa de combustível para o E32. No caso do E30, era necessário corrigir apenas 3,4%“, explica.
Esse ajuste é feito automaticamente pela central eletrônica, com base na leitura da sonda lambda, o que permite que a maioria dos carros em circulação, principalmente os flex, se adapte sem dificuldade imediata.
Ainda assim, há situações em que a diferença pode aparecer. “A frio, principalmente abaixo de zero graus, esta diferença na partida pode ser muito mais significativa, uma vez que este etanol terá uma queima tardia até o motor se aquecer“, diz.
Motores mais modernos entram na equação
A discussão fica mais sensível quando se olha para os motores mais recentes, especialmente os de injeção direta, hoje comuns até em carros de entrada. Neles, o combustível não serve apenas para a combustão, mas também para lubrificar componentes que operam sob alta pressão, como bombas e injetores.
“Para os motores de injeção direta, que trabalham com pressões acima de 350 bar, o combustível também exerce função de lubrificação. Isso exige maior resistência ao desgaste por atrito. Com certeza impacta a vida útil desses componentes. O quanto isso significa, só testando“, afirma Franieck.
Na prática, isso significa que, embora o sistema consiga se adaptar à nova mistura, ainda há incerteza sobre efeitos no longo prazo, algo que depende de testes de durabilidade.

Regra geral tem limite
Existe no setor a ideia de que motores puramente a gasolina suportam misturas entre 22% e 40% de etanol. Mas essa afirmação, segundo o engenheiro, precisa ser vista com cautela.
A frota brasileira foi originalmente calibrada para E22, com tolerância regulatória que já previa pequenas variações. “De 21% a 28% já é obrigação dos fabricantes garantir”, explica.
Acima desse patamar, o comportamento passa a depender do tipo de tecnologia embarcada. “Para sistemas de injeção indireta, sabemos da robustez, pois são muito similares aos motores flex. Porém, para sistemas de injeção direta, quando se eleva a pressão para 350 bar, os componentes não foram dimensionados para isso”, afirma.
Ele resume o risco de forma direta: “A susceptibilidade aos problemas de durabilidade nesses motores é perigosa para os sistemas modernos a gasolina”.
Consumo deve subir, ainda que pouco
Para o consumidor, o impacto mais imediato deve ser discreto, mas existente. “O consumo deve aumentar ligeiramente, de E30 para E32, algo em torno de quase 1%”, diz o engenheiro.
É uma variação pequena, mas que mostra que o aumento do teor de etanol, embora positivo do ponto de vista ambiental, também altera a eficiência energética do combustível.
Transição pode ser apenas o começo
A elevação para 32% é tratada no governo como um primeiro passo. As diretrizes da Lei do Combustível do Futuro já permitem avançar até 35% de etanol na gasolina, movimento que depende de validação técnica mais aprofundada.
Antes de chegar na taxa máxima, no entanto, o Ministério de Minas e Energia vai realizar uma pesquisa mais ampla, que vai custar em torno de R$ 30 milhões e pode durar três anos. A coordenação desses estudos será feita pelo Centro de Pesquisas e Análises Tecnológicas da Agência Nacional do Petróleo.
Fonte: Uol Carros
